terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

Mais uma indicação de leitura. Pode parecer infantil, mas não é. Juro.

Só mesmo Jorge Amado para criar uma história de amor entre um gato e uma andorinha. Para mim, fanática pelo livro, a mais bela de todos os casos de amor do Amado.



Jorge escreveu esta história infantil para o seu filho, João Jorge, como presente para o menino em seu primeiro aniversário. Na época, moravam em Paris e o ano era o de 1948. Não tinha a intenção de publicá-lo. Quando João, em 1976, encontrou o escrito em suas coisas, resolveu torná-lo público, graças a Deus! As ilustrações são do também baianíssimo, amigo de Jorge Amado, Caribé.

Abaixo, um pedaçinho para vocês!

"Os pais de Sinhá iam ralhando com ela. Mas estavam tão comovidos com o próprio heroísmo – tiveram coragem de afrontar o Gato Malhado para salvar a filha – que não ralharam demasiado. A Andorinha Pai dizia à Andorinha Mãe: Nós amamos nossa filha, nós a salvamos. A Andorinha Mãe respondia: - Nós somos bons pais, protegemos nossa filha. E se olhavam, admirando-se mutuamente. Proibiram terminantemente a Andorinha de, novamente, aproximar-se do inimigo feroz. Se os juramentos da Andorinha jovem não têm nenhum valor, bruscas proibições só fazem aguçar-lhe o interesse e a curiosidade. Não que Sinhá fosse uma dessas andorinhas às quais basta que se diga não faça isso para que, imediatamente, não o façam. Ao contrário, terna e obediente, amava os pais. Era bem-comportada, amável e bondosa. Mas gostava que a convencessem das coisas com boas e justas razões, e, ainda, ninguém lhe havia provado ser um pecado ou um crime manter relações cordiais com o Gato Malhado.
Assim, quando deitou a gentil cabecinha sobre a pétala de rosa que lhe servia de travesseiro, havia decidido continuar a conversa no outro dia: - Ele é feio mas é simpático… - murmurou ao adormecer. Quanto ao Gato Malhado, também ele pensou na arisca Andorinha Sinhá, naquela primeira noite de Primavera, ao repousar a cabeça no travesseiro. Aliás, eis uma coisa que ele não possuía: travesseiro. Além de mau e feio, o Gato Malhado era um pobre de Job; repousava a cabeça em cima dos braços. Sendo de pouco luxo, não reclamava. Falta sentia de outras coisas: de afeição, de carinho e de salsichas vienenses. Recolheu-se tarde. Antes, andara pelo parque, ao léu. Arranhara a casca de troncos árvores, miara sem motivo evidente, sentira desejo de voltar a vagabundear nos telhados como praticara na distante adolescência. O cheiro bom da terra penetrara-lhe pelas narinas e seus grandes bigodes moveram-se inquietos. Sentira-se muito moço, até teve vontade de correr com os cães. E o teria feito, com certeza, se os cachorros não se houvessem afastado, cheios de receio, quando ele os procurou. Tal fora o seu estado de lassidão e de indefinido desejo que murmurou para si mesmo: - Creio que estou doente. Colocou a pata sobre a testa e concluiu: - Estou ardendo em febre… Quando, ao cair da noite, voltava para a sua cama – um velho trapo de veludo – olhou uma flor e nela viu reflectidos os rasgados olhos da Andorinha. Febril, foi ao lago beber água e, na água, também enxergou a Andorinha que sorria. E a reconheceu em cada folha, em cada gota de orvalho, em cada réstia de sol crepuscular, em cada sombra da noite que chegava. Depois a descobriu vestida de prata na lua cheia para a qual miou um miado dolorido. Ia alta a noite quando conseguiu dormir. Sonhou com a Andorinha, era a primeira vez que ele sonhava havia muitos anos. Devo concluir que o Gato Malhado de feios olhos pardos, de escura fama de maldade, havia se apaixonado?
Agora que ele e a Andorinha dormem, que só a Velha Coruja está acordada, permito-me filosofar um pouco. Desejo dizer que há gente que não acredita em amor à primeira vista. Outros, ao contrário, além de acreditar, afirmam que este é o único amor verdadeiro uns e outros têm razão. É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e, um dia qualquer, ele desperta, com a chegada da Primavera ou mesmo no rigor do Inverno. De repente, o amor desperta de seu sono à inesperada visão de um outro ser. Mesmo se já o conhecemos, é como se o víssemos pela primeira vez e, por isso, se diz que foi amor à primeira vista. Assim o amor do Gato Malhado pela Andorinha Sinhá. Quanto ao que se passava no pequeno, porém valoroso coração de Sinhá, não esperem que eu explique ou desvende. Não sou tão tolo a ponto de achar-me capaz de entender o coração de uma mulher, quanto mais de uma andorinha. Nenhuma dessas considerações perturbou naquela noite o Gato Malhado. Em verdade, ele não se julgava, ainda, apaixonado. Tal ideia nem lhe ocorreu.
Quando era jovem, apaixonava-se todas as semanas (…). Despedaçara inúmeros corações de gatas de todas as cores, de uma coelha cinzenta e de uma raposa adolescente. Mas isso fazia tanto tempo que ele nem mais se recordava dos nomes e das situações. Vivia no seu canto, eu já expliquei, tranquilo, preguiçando ao sol, gozando a doce carícia da brisa, o frescor das noites de Verão, o frio gostoso do Inverno. Agora vinha a Primavera perturbar a sua paz. No dia seguinte, ao acordar e lavar a cara, pensou na Andorinha, recordando o sonho a acompanhá-lo pela noite: ele e Sinhá discutindo de boniteza e feiura. Riu-se: ontem eu estava doente; e resolveu não pensar mais na Andorinha. Dirigiu-se ao seu canto predileto para calentar sol sobre o velho trapo de veludo.
A vida se desenvolvia pelo parque. Bem, ali está o Gato Malhado. Deitado, como sempre, ao comprido para que o sol gostoso da Primavera o envolva por inteiro. Mas, o que é estranho, não consegue fechar os olhos como o faz habitualmente. A experiência lhe ensinara que, de olhos fechados, goza-se muito mais o calor do sol e a frescura da brisa. No entanto, naquele segundo dia de Primavera, tinha os olhos abertos, e, ademais, voltados para a árvore onde, na véspera, estivera a Andorinha Sinhá. Quando percebe o que está sucedendo, fica furioso. Desvia o olhar e, assobiando, devagarinho, busca outras paisagens. Olha os cachorros que correm - os idiotas não sabem fazer outra coisa -, as árvores cheias de folhas, olha até o Papagaio ocupado a rezar as suas orações matinais. - Bom dia, meu caríssimo doutor Gato Malhado. Como vai a saudinha? Graças a Deus, bem? O Gato nem se digna responder. Além de tudo seu olhar já está de novo fixo na árvore onde a Andorinha pousara na véspera (…), na esperança de que a Andorinha Sinhá viesse… Mas ela não veio, a ingrata! E vamos reencontrar o nosso amigo Malhado já sem nenhuma alegria, num estado de espírito muito diferente daquele em que acordara, a leveza que sentia desde a véspera, os grandes bigodes estavam caídos, desmoralizados, murchos. Isso era um triste e perigoso sinal em se tratando do gato Malhado. Seus bigodes eram o índice do seu humor.
Fita mais uma vez a árvore, tantas vezes já o fizera antes… Não vê a andorinha, a sombra da árvore cobre-lhe o corpanzil. Os olhos pardos escurecem. Por que sente o coração dorido? No entanto, é Primavera em torno."

Bisous

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